quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Filho de Netuno III

Capítulo III
Parte DOIS


  — Seu quartel-general? — Percy perguntou.
             Reyna olhou para ele, seus olhos ainda frios e hostis.
— É chamado de principia. — Ela examinou a plebe de campistas
curiosos que os tinham seguido desde o rio. — Todos voltem às suas
funções. Darei uma atualização à vocês na reunião de hoje à noite. Lembrese,
teremos jogos de guerra depois do jantar.
             O pensamento do jantar fez o estômago de Percy roncar. O aroma de
churrasco do refeitório deu água na boca. A padaria no fim da rua também
cheirava muito bem, mas ele duvidava que Reyna o liberasse para ir até lá.
             A multidão se dispersou relutante. Alguns comentaram sobre as
chances de Percy.
             — Ele está morto. — Disse um.
             — Devem ter sido aqueles dois que encontraram ele. — Disse outro.
             — É. — Murmurou outro. — Deixe-o se juntar à Quinta Coorte.
Gregos e geeks.
             Algumas crianças riram disso, mas Reyna fez uma careta para eles,
que sumiram.
             — Hazel. — Reyna disse. — Venha conosco. Quero seu relatório do
que aconteceu nos portões.
             — Eu também? — Frank disse. — Percy salvou minha vida. Temos
que deixá-lo…
             Reyna deu a Frank um olhar tão severo que ele deu um passo para
trás.
             — Devo te lembrar, Frank Zhang, — ela disse — que você está no
próprio probatio. Você tem causado problemas o suficiente essa semana.
             As orelhas de Frank ficaram vermelhas. Ele brincava com um
pingente amarrado no pescoço. Percy não tinha prestado muita atenção
naquilo, mas parecia um crachá feito de chumbo.
             — Vá ao arsenal. Vou te chamar se precisar.
             — Mas… — Frank parou. — Sim, Reyna.
             Ele correu de Reyna, que apontou para Hazel e Percy na direção do
quartel-general.
             — Agora, Percy Jackson, vamos ver se podemos melhorar sua
memória.


principia era mais impressionante por dentro. No teto brilhava um
mosaico de Rômulo e Remo debaixo de sua mãe loba adotada (Lupa havia
contado essa história milhões de vezes para Percy). O chão era de mármore
polido. As paredes estavam envoltas em veludo, então Percy se sentiu dentro
da tenda de acampamento mais cara do mundo. Ao longo das paredes estava
uma exposição de cartazes e varas de madeira cravadas com medalhas e
bronze – símbolos militares, Percy adivinhou. No centro estava um
mostruário vazio, como se o cartaz principal tivesse sido retirado para a
limpeza ou algo do tipo.
            No canto, uma escada levava para baixo. Estava bloqueada por uma
fileira de barras de ferro como uma porta de prisão. Percy se perguntou o que
havia lá em baixo – monstros? Tesouros? Semideuses amnésicos que tinham
conhecido o lado mau de Reyna?
            No centro da sala, uma longa mesa de madeira estava repleta de
pergaminhos, notebooks, tablets, adagas, e uma tigela grande cheia de
jujubas, que parecia estar fora do lugar. Duas estátuas de galgos em tamanho
real – uma prata e uma dourada – ladeavam a mesa. Reyna foi para trás da
mesa e se sentou em uma das duas cadeiras de encosto alto. Percy desejou
poder sentar na outra, mas Hazel ficara de pé. Percy teve a sensação que ele
também teria que ficar.
            — Então… — ele começou a dizer.
            As estátuas de cachorro arreganharam os dentes e rosnaram.
            Percy franziu o cenho. Normalmente ele gostava de cachorros, mas
aqueles o encaravam com olhos de rubi. Seus dentes pareciam tão afiados
quanto navalhas.
            — Quietos meninos. — Reyna disse aos galgos.
            Eles pararam de rosnar, mas continuaram vendo Percy como se
estivesse imaginando-o em um saco de ração.
            — Eles não atacarão, — Reyna disse — a menos que você tente
roubar alguma coisa, ou a menos que eu mande. Eles são Argentum e
Aurum.
            — Prata e Dourado. — Percy disse. Os significados em latim
apareceram em sua cabeça, assim como Hazel havia dito que aconteceria.
Ele quase perguntou qual era qual. Então percebeu que era uma pergunta
idiota.
            Reyna colocou sua adaga na mesa. Percy teve a vaga sensação que
eles já haviam se visto antes. Seu cabelo era preto e liso como uma pedra
vulcânica, trançado nas costas. Ela tinha a pose de um espadachim –
relaxada, mas ainda assim vigilante, como se pronta para entrar em ação a
qualquer momento. As linhas de preocupação ao redor dos olhos a faziam
parecer mais velha do que provavelmente era.
            — Devemos nos conhecer. — ele decidiu. — Não lembro quando.
Por favor, se puder me contar qualquer coisa…
            — As coisas mais importantes primeiro. — Reyna disse. — Quero
ouvir sua história. Do que você lembra? Como chegou aqui? E não minta.
Meus cachorros não gostam de mentirosos.
            Argentum e Aurum rosnaram para enfatizar o ponto.
            Percy contou sua história – como ele havia acordado na mansão em
ruínas nas florestas de Sonoma. Ele descreveu o tempo com Lupa e sua
matilha, aprendendo a linguagem de gestos e expressões, aprendendo a
sobreviver e a lutar.
            Lupa o ensinou sobre os semideuses, monstros e deuses. Ela tinha
explicado que ela era uma dos espíritos guardiões da Roma Antiga.
Semideuses como Percy ainda eram responsáveis por continuar as tradições
romanas nos tempos modernos – lutar com monstros, servir aos deuses,
proteger mortais, e sustentar a memória do império. Ela tinha perdido
semanas treinando-o, até ele estar tão forte, resistente e perverso quanto um
lobo. Quando ela ficou satisfeita com suas habilidades, mandou-o para o sul,
dizendo que se sobrevivesse na jornada, deveria encontrar uma nova casa e
recuperar sua memória.
            Nada pareceu surpreender Reyna. De fato, ela pareceu achar isso
bem comum – exceto por uma coisa.
            — Nenhuma memória? — ela perguntou. — Você não se lembra de
nada ainda?
            — Partes vagas e peças soltas. — Percy olhou para os galgos. Ele
não quis mencionar Annabeth. Pareceu muito particular, e ele ainda estava
confuso sobre onde encontrá-la. Ele tinha certeza que eles tinham se
conhecido em um acampamento – mas esse não parecia ser o lugar certo.
            Além disso, ele ficou relutante em compartilhar sua única memória
clara: o rosto de Annabeth, o cabelo loiro e os olhos cinzentos, o jeito que
ela ria, atirando seus braços ao redor dele, e dando um beijo nele sempre que
fazia algo estúpido.
            Ela deve ter me beijado muito, Percy pensou.
            Ele temia que se falasse sobre essa memória para alguém, ela
evaporaria como um sonho. Ele não podia arriscar.
            Reyna girou a adaga.
            — A maior parte do que descreveu é normal para semideuses. Até
certa idade, de um jeito ou de outro, encontramos o caminho para a Casa dos
Lobos. Somos testados e treinados. Se Lupa achar que somos dignos, nos
manda para o sul para entrar para a legião. Mas nunca tinha ouvido falar de
alguém que perdeu a memória. Como encontrou o Acampamento Júpiter?
            Percy contou a ela sobre seus três últimos dias – as górgonas que não
morreriam, a senhora que virou uma deusa, e finalmente quando conheceu
Hazel e Frank no túnel da colina.
            Hazel continuou a história dali. Ela descreveu Percy como corajoso e
heróico, o que o deixou desconfortável. Tudo o que ele havia feito tinha sido
carregar uma senhora hippie.

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